Você já deve ter se pego nessa situação: vira a última página de um livro e sente aquele aperto no coração. A história chegou ao fim. É hora de se despedir de seus personagens preferidos: verdadeiros amigos que o acompanharam durante essa jornada literária. Então, imagine se houvesse um espaço onde fãs de uma obra, de todo o mundo, pudessem dar continuidade a essa história e, quem sabe, até mesmo participar dela. Esse espaço já existe em muitos sites, blogs e fóruns destinados à publicação das fan fictions – ficções criadas por fãs que têm como pano de fundo referências de livros, filmes, seriados, histórias em quadrinhos e até mesmo personagens da vida real, como músicos e atores.
A fan fiction, ou sua versão abreviada fanfic, toma emprestada da obra original seus personagens, algumas situações, cronologia e lugares por onde a trama se desenrola. “Encaro as fanfics como uma expressão literária. Muitas delas são bem escritas, têm enredos próprios, narrativa bem construída e personagens bem desenvolvidos”, afirma a blogueira e escritora, de 24 anos, Babi Dewet.
Barbara Dewet de Assis Ribeiro, Babi Dewet, gosta de escrever desde pequena. “Meu hobby era sentar e ler mesmo sem entender muito do que estava nos livros”, conta Babi. Com o passar dos anos, surgiu a vontade de contar suas próprias histórias. “Antes de saber escrever, eu contava minhas histórias com brincadeiras e teatros. Depois, passei a rabiscar por conta própria. E, aos 16 anos, descobrindo Harry Potter, entrei no mundo das fanfics”. Assim como aconteceu com Babi, as primeiras ficções escritas por fãs eram dedicadas às aventuras inspiradas no bruxinho, de J.K Rowling.
Com o uso cada vez mais frequente da internet, essas histórias ganharam outros temas e espaços e atraíram a atenção de muitos leitores e escritores. “Acho que o sucesso das fanfics se deve a um misto de paixão e insatisfação. Algumas pessoas se apegam a livros, filmes, celebridades, animes e desejam ter mais do que lhes é fornecido pelo meio convencional. As fanfics trazem muitas possibilidades, reinventando as histórias que adoramos e criando espaços para que outras, sem nenhuma ligação com o tema original, possam ser descobertas. O mundo das fan fictions é totalmente alternativo e ilimitado, tornando-o mais atrativo”, argumenta a corretora e escritora, de 26 anos, Maria Nunes, mais conhecida no universo das fan fictions como Lunah.
Maria Nunes, a Lunah, mora em Fortaleza, no Ceará e, no início de 2009, começou a escrever suas fictions. “Quando, conheci o mundo das fanfics, percebi que a ilimitada imaginação dos ficwriters (escritores de fanfics) era capaz de criar histórias melhores do que muitos livros que já havia lido. Foi então que comecei minha primeira fanfic e leitores fiéis não me deixam desistir de escrever até hoje”, conta.
Para Babi, escrever ficções de seus ídolos pode ser um bom começo para quem aspira tornar-se um escritor profissional. “De certa forma, as fan fictions são uma escola para escritores. Você tem resposta, quase imediata, dos leitores com suas críticas e comentários. O caráter editável das fics também permite que o autor melhore sempre seu texto: edite, corrija e escreva sobre o tema da forma que quiser e imaginar”, afirma a blogueira. Lunah compartilha da mesma ideia e enfatiza que, em muitos casos, é comum o surgimento de obras totalmente originais. “Assim como eu, a maioria dos ficwriters que conheço criou histórias originais usando apenas os nomes de personagens conhecidos. O enredo era tão diferente a ponto de desvincular os personagens dos criados originalmente”, afirma a escritora.
Foi nas fanfics de sua autoria que Babi encontrou inspiração para escrever seu primeiro livro: Sábado à noite, em 2009. “Lancei o livro baseado em uma fanfic que escrevia para os fãs da banda britânica McFly. A ideia de serem quatro garotos músicos com uma banda famosa tornou toda a história fantástica em minha cabeça e os leitores parecem ter gostado do resultado”, conta a escritora que publicou seu livro de forma autônoma, lançando-o na Bienal do Livro de São Paulo, em julho de 2010.
Com a evolução desse estilo literário surgiram fan fictions interativas, uma espécie de cruzamento das fanfics com os jogos de RPG em que o jogador assume o papel de interpretar um personagem. Nas fics interativas, os rumos das histórias e destinos dos personagens são discutidos em grupos de e-mail e fóruns. Mas escrever fan fictions pode não ser tão simples quanto parece. É preciso ter mente aberta para as críticas que virão dos leitores bem como uma dose extra de imaginação. Referências literárias também fazem parte dos quesitos básicos para se tornar um escritor de fics de sucesso. “A pessoa que quer escrever precisa, claro, ler muito, conhecer estilos diferentes de escrita e enredo. Se quer ser um bom escritor, de fanfics ou de livros, precisa mergulhar no universo dos livros o quanto antes”, afirma Babi.
Para escrever fanfics de qualidade, Babi dá mais dicas: “mantenha o português correto, uma regularidade no que escreve, uma linearidade na história, coesão e bons personagens”, enumera. “A regra número um de uma fanfic é ser criativa, sair da comodidade e conhecer o público-alvo (fandom) a quem se dirige”. Ter um Beta Reader também pode ser fundamental. “O Beta é geralmente alguém de sua confiança que te auxilia em quase tudo, revisa o texto para evitar que ele seja postado com erros gramaticais e mantém sempre um olhar crítico sobre a fanfic para ajudar a melhorá-la”, enfatiza Lunah. Por fim, é preciso apaixonar-se pelo enredo e divertir-se muito!
SERVIÇO:
Conheça alguns sites que hospedam fanfics:
1. Fanfic Obsession
2. Fanfic Addiction
3. Nyah! Fanfiction
4. Platonic Fics
5. Pop Fics